domingo, 1 de agosto de 2010

O começo do convívio



Ser ouvida ainda é o grande desafio dentro da sala de aula. O cenário é claro: a maioria dos alunos está dispersa naquele espaço, jogando bolinha de papel, ou pelos pés, ou pelas mãos, ou as atirando uns nos outros, ou também correndo, brincando de pega-pega, ou ouvindo músicas pelos celulares, ou subindo nas carteiras e pulando sobre elas, às vezes derrubando-as no chão, tudo isso numa gritaria assustadora. É difícil pensar por onde começar, mesmo porque são tantas as sensações que se misturam diante daquele pequeno caos instaurado na sala de aula.

Caminho até a mesa do professor e coloco meu material sobre a carteira. Respiro fundo, separo o giz e o apagador e começo a escrever na lousa. Sei que tenho muito a fazer, mas o sentimento de incapacidade me envolve com sabor amargo. Os alunos começam a perguntar se devem copiar, se vou dar muita lição, e muitos já se adiantam em dizer que não irão fazer nada. Então inicio minha tentativa de, de fato, dar aulas. Olho para toda a classe e começo a falar. Não me lembro exatamente o que, mas consigo reconstituir esse panorama perfeitamente na minha memória. Mesmo porque a cena iria se repetir inúmeras vezes nas primeiras semanas, e eu já me perguntava até quando suportaria tal martírio.

Agora ainda repito a mesma pergunta, mas devo confessar que o martírio já não me parece tão insuportável. Talvez nem possa mais considerá-lo de fato um martírio; sinto que aos poucos os alunos começam a mudar. Percebem a minha presença e, sem que eu peça, param de jogar bolinhas, de correr pela sala e até desligam seus celulares! Fico atenta, e penso: “será que essas pequenas mudanças já são frutos de meus atos, também pequenos, mas que de certa forma surtiram algum efeito no espírito daquelas crianças?” Uma luz se acende em meu horizonte...

domingo, 23 de maio de 2010

Nova paisagem, primeiras impressões











Era uma tarde fresca de outono. Eu caminhava pelas ladeiras sinuosas da Estrada de Taipas, olhando por todos os lados e observando cada encosta com suas matas verdes que cobriam a grande montanha do Pico do Jaraguá. A linha do trem passa lá embaixo, e sobre ela há uma ponte de ferro antiga e preservada, de cor cobre, que brilha sob a luz do sol quente. Caminhei quase quarenta minutos nessa paisagem nova e impactante para meus olhos que miravam qualquer alvo. Havia algo de estranho naquela nova paisagem, que se misturava com uma certa expectativa. O novo é sempre entusiasmante...

Então me deparei com a escola gigantesca, ocupando todo o imenso quarteirão, numa descida íngreme que culminava com a praça de frente para a Arábia. Por todos os lados eu estava cercada pelo City Jaraguá, onde vários prédios, não muito altos, espalhavam-se pelas encostas dos morros. O clima fresco e o vento cortante deixavam a tarde mais fria ali do que no centro de São Paulo; ainda bem que eu levara uma blusa na mochila. A paisagem era mesmo bonita de se olhar: aquela ocupação humana, mesmo que precária, tomava contornos fortes no espaço e se instalava com suntuosidade naquela região.

Por dentro a escola tem uma pátio espaçoso, que fica pequeno com todas as crianças no recreio. Ali fica também a cozinha, onde as crianças recebem a merenda, e num outro canto estão os banheiros e o corredor com as salas da secretaria e da diretora. Foi nesta última que fiquei tratando de minha posse e me preparando para entrar de vez na sala de aula. Eu não pensava, até aquele momento, que eu iria de fato dar minhas primeiras aulas logo de imediato. Muito menos imaginei o impacto que eu iria sentir quando me coloquei diante dos alunos, olhando-os de frente e aguardando, durante um bom tempo, que eles me escutassem. Descobri então o primeiro grande desafio do magistério: era preciso, antes de tudo, ser ouvida.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Prazer em conhecer

Geralmente negamos aquilo que somos, mentimos pra nós mesmos. Somos seres partidos ao meio, cindidos, condenados a vivermos nessa condição.
Eu me opus a você e você me insultou, cuspiu germinal que desfez sua persona. Revelou-se o seu outro, agressivo, implacável. E eu perdi o direito de me sentir magoada. Mas aqui me apresento, pronta, excluída, carregando o indulto dos marginalizados.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Passeio

Procuro um lugar seguro
para me perder
Persigo muitas dores
que me afastem do horror
Desejo o traço forte
transformado em caminho
de flores, de cores
que me faça chorar...

domingo, 4 de abril de 2010

Mergulho

Digitais ensaiam peças para compor o palco dos próprios desejos.
Seres digitais buscam, na verdade,
a subjetividade perdida na imensidão virtual.
Hoje, mergulho e procuro as palavras, com tempo.
Nas ondas, e ao vento, espalho um pouco de mim.