
Ser ouvida ainda é o grande desafio dentro da sala de aula. O cenário é claro: a maioria dos alunos está dispersa naquele espaço, jogando bolinha de papel, ou pelos pés, ou pelas mãos, ou as atirando uns nos outros, ou também correndo, brincando de pega-pega, ou ouvindo músicas pelos celulares, ou subindo nas carteiras e pulando sobre elas, às vezes derrubando-as no chão, tudo isso numa gritaria assustadora. É difícil pensar por onde começar, mesmo porque são tantas as sensações que se misturam diante daquele pequeno caos instaurado na sala de aula.
Caminho até a mesa do professor e coloco meu material sobre a carteira. Respiro fundo, separo o giz e o apagador e começo a escrever na lousa. Sei que tenho muito a fazer, mas o sentimento de incapacidade me envolve com sabor amargo. Os alunos começam a perguntar se devem copiar, se vou dar muita lição, e muitos já se adiantam em dizer que não irão fazer nada. Então inicio minha tentativa de, de fato, dar aulas. Olho para toda a classe e começo a falar. Não me lembro exatamente o que, mas consigo reconstituir esse panorama perfeitamente na minha memória. Mesmo porque a cena iria se repetir inúmeras vezes nas primeiras semanas, e eu já me perguntava até quando suportaria tal martírio.
Agora ainda repito a mesma pergunta, mas devo confessar que o martírio já não me parece tão insuportável. Talvez nem possa mais considerá-lo de fato um martírio; sinto que aos poucos os alunos começam a mudar. Percebem a minha presença e, sem que eu peça, param de jogar bolinhas, de correr pela sala e até desligam seus celulares! Fico atenta, e penso: “será que essas pequenas mudanças já são frutos de meus atos, também pequenos, mas que de certa forma surtiram algum efeito no espírito daquelas crianças?” Uma luz se acende em meu horizonte...
